terça-feira, 9 de outubro de 2012

Trem das nove

Solidão que nada - Cazuza

    Olha, amigo, não me venha com circunlóquios: Eu sei bem que qualquer encanto se perderia ao som de uma música comum - mas banhos-maria nunca reverteram desencantos. De fato, sua versão pouco me interessa nessa dramaturgia, a mesma moça do coração dado é a que teve o coração partido e a que merece o consolo que só o verbo é capaz de propor. 
    Ontem mesmo sentiu o gosto salgado da água que cai sob os olhos como quem não sabe se a maior saudade é do que foi, do que era pra ser, do que não foi por não ser pra ser, do ser que eu era, do ser que eu deveria ter sido - e a culpa ainda se encaixa sobre os ombros do primeiro a ceder a queda de braço do amor. Ah, pequena, tira esse peso dos ombros e vem brincar de ser feliz. O tempo dá-se ao mesmo tempo a chance de deixar na lixeira do canto esquerdo qualquer culpa ou amargura que só o coração surrado vem a proporcionar - e sua coluna tem sentido faz tempo o peso do amar demais. 
    Para de olhar no relógio a hora de esvaziar a mente pra sentir a dor amarga e pura - a velha tarde se fazendo cinza e nos trazendo a realidade de bandeja - pois hoje nada supera seu melhor sorriso, seu melhor vestido, seu levantar de sobrancelhas que entrega todo seu mistério a ser desvendado nas mãos de um desconhecido qualquer. Treliças fechadas, mente ocupada, coração desocupado e batom vermelho sangue é receita certa para quem precisa recuperar o trem das nove. Vai, entenda de uma vez, essa saudade do futuro é o que deixa o vento entrar depois das sete. 


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Não existe artigo definido. Não existe posse no amor.

  Não precisa mudar - Ivete Sangalo e Saulo Fernandes

  "Espera, eu pedi essa credencial?", sussurrava como quem não entendia e ao mesmo tempo latejava um flashback coletivo na mente - droga de latejo, droga de sussurro. É, essa mania universal de colocar palavras na minha boca e ignorar minhas palavras como se elas fossem apenas uma forma de eu lidar com meus sentimentos foi o que nos trouxe ao começo do nosso fim - e olha que já perdi a conta das vezes que deixei claro que não sou de lidar, sou de deixar ser. O jeito agora é rir do paradoxo que você construiu aqui enquanto eu pedia pra você me tirar do seu tabuleiro e você me entregava uma coroa e me fazia rainha dele, como se eu implorasse bem lá no fundo o título de mulher da sua vida.
    Não, da vida não. Quero ser uma mulher na sua vida, daquelas que passam mas deixam um sorriso no rosto toda vez que você escuta um "lembra da fulana?", e então você lembra e torce pra que ela esteja por aí tirando sorrisos e sorrindo de volta. Ah, essa ideia de eternidade, de imutabilidade, de propriedade, de regras, de compromisso, de rótulos ou de dividir com a mesma pessoa o macio do meu lençol azul turquesa chega me dar uma ressaca sem nem ter sentido o gosto de qualquer uma delas.  
    O moço acabou de sair e deixou a porta encostada como quem diz que vai embora por não ter conquistado o êxito de mudar esse meu fascínio pela liberdade mas que me dá outra chance se eu quiser mudar por ele. Por você, ah... Como se eu quisesse que você fosse mais meu do que seu ou vice-versa em qualquer instante que seja. Minha porta também ficou encostada, mas como quem diz que se em um dia qualquer bater saudade, faltar sorriso, sobrar o fôlego... Tô aqui - e o cabide com função de segurar aquela sua toalha horrorosa do time adversário também. Quando eu disse que não queria o estigma de mulher da sua vida, que eu respiro amor e não compromisso, que eu estava ali por mim e não por você: eu falava sério, você não acreditou. A gente dura enquanto o sorriso durar.


sábado, 8 de setembro de 2012

Ao gosto amargo de um doce amor

É sobre o seu abraço - Soulstripper  

 "Eu sempre gostei desse joguinho de quem fere mais e quem ama menos."
   Assim retomo a escrita por não haver, nem de longe, frase que nos defina melhor. Naquele sábado de primavera (meados de setembro, se não me engano) você dava o ponto de partida em um jogo de sacanagens que nos divertiria e nos desgastaria mais que qualquer relacionamento duradouro de forma cômica e trágica similarmente. Engraçado que nos respeitávamos a ponto de dar ao outro a “vez”, quando assim o era, e planejávamos como se realmente quiséssemos que aquela fosse a última vez: o nosso ponto final, não as reticências de sempre. Você começou e, querendo ou não, eu tenho que terminar pra ninguém sair prejudicado nessa, me entende? Sei que foi um amor bem divertido tentando me ferir e sendo ferido logo adiante, mas acabou a comicidade da obra e só sobraram as tragédias, meu bem. Tomei a decisão de lutar por você só pra não me arrepender por não ter feito, sabe?
   Estou agora, sentada, com borboletas dançando no estômago e a língua presa entregando muita mentira e pouca verdade – ou vice-versa. Tava com saudade de ansiedade, de dar a cara à tapa, de incerteza, de instabilidade e talvez até de você. Gosto de você, gosto muito: só não preciso. Um “não” só me fará dar um jeito de afogar minha mágoa com saliva alheia e voltar a rotina de experimentar bocas e mentes que talvez até te substituam daqui um tempo - ou não, vai que você nasceu pra mim. Chega o frio, chegam os sentimentos, chega nós dois mais uma vez tentando fazer certo do jeito errado. Vem andar na minha trilha torta?

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Indigestão amorosa


   Sabe qual o maior problema daquele relacionamento bobo que acabou e deixou um gostinho de "poderia ter sido diferente"? Ele assombra sempre que surge oportunidade. Um beijo mal dado, um ciúmes sem explicação, um boato sem total veracidade, falta de sintonia na cama, qualquer motivo besta que leve a um fim mal digerido. Engraçado que a gente sabe que é dar murro em ponto de faca e entra na primeira fresta de luz - que custa nos caber, por sinal - tentando montar um futuro hipotético e patético que só existe naquele pensamento de travesseiro no final da noite.
   Uma pena eu ter nascido dessas que quer mastigar e engolir sem deixar gosto na boca. Acabo nem que seja pra descobrir que a química realmente não deixa acontecer ou pra odiá-lo como se odeia a qualquer ex que te persegue. Que seja! Melhor ex perseguindo do que a sombra do mesmo. Odeio o mal acabado, o mal digerido, o talvez, o quase, o cu doce de adolescente. Se eu me dou por inteiro, exijo ter por inteiro e que me aceite por inteiro também. Nunca fui de beiradas nem de insegurança fajuta. É, já diziam os clichês da vida: "Melhor se arrepender do feito do que do não feito".

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Geração do H minúsculo

Garotos - Leoni 

 Quando as mulheres dizem "tá faltando homem, homem com H maiúsculo" há a parcela que concorda, a que discorda, a que bocega com todo o senso de clichê, os indiferentes e os diferentes. Homem com H maiúsculo talvez seja mal descrito e posto em um perfis muito pessoais. Não falta H, falta decisão. Os homens indecisos dominaram o mundo nos últimos tempos. Eles não destroem seu coração, não esquecem de ligar, não dizem que acabou e não são convincentes. O homem indeciso te manda mensagem no outro dia, comenta o futebol e a novela, sempre deixa rastros de onde encontrá-lo, tem amigos para os quais admite o relacionamento e tem amigos para os quais nem tanto. Ele não termina com você mas te trata de forma indiferente esperando que você simplesmente note e  diz "não sei se tá dando certo" ou só "sei lá". Ele não te exclui de sua vida mas também não inclui. Se você pergunta o que ele quer, ele nunca sabe - jura que é por charme e eu juro que é por imaturidade e medo. Essa multidão indecisa tem que fingir desapego na sua frente e acha justo você tomar partido entre gostar dele ou gostar de você mesma. Tem medo de compromisso pois não aguentaria os apelidos que os amigos colocam, em verdade, pelo simples fato de serem amigos e  acaba evitando compromissos físicos por medo dos mesmos tornarem-se emocionais. O homem indeciso não sabe, mas se passa por frouxo frente a qualquer mulher de personalidade forte. Ele some mas te manda mensagens de bom dia ou boa noite duas vezes por semana para tentar te "manter" em uma lista de pego sempre. Ele se convence de que não é traído e depois se convence de que nos convenceu que também não somos. O homem indeciso confunde respeito com despeito, tem receios físicos e morais, são a massa maior atual. São cheios de tanto faz mas não fazem é nada. Homem indeciso não tem personalidade, virou padrão, não serve.            

   O tal homem com H maiúsculo pode até sumir, mas quando aparece está com o mundo paralisado para você. Ele mostra pra todos os presentes e especialmente pra você que quer estar ali, se entrega por inteiro e não tem receios físicos ou morais. Sabe transformar a química na física de uma forma sensacional e cumpre a velha receita da reciprocidade. Manda mensagem ou liga quando precisa ou só pra te tirar um sorriso do rosto. Comenta de futebol, novela, relacionamentos, problemas pessoais. Tem respeito e nada de despeito: diz que quer, como quer, onde quer, porque quer, que quer e tudo isso com o maior charme do mundo. Se ele te trai, é totalmente discreto e é competente a ponto de não precisar te tratar como uma imbecil que não vê os próprios chifres. Trai por vontade e não por não dar importância pro que vocês tem ou por ego. Ele faz em uma algumas horas o que um H minúsculo não consegue em meses. Homem com H maiúsculo pode ser cafajeste, fiel, ser seu todos os dias ou só de vez em quando, querer algo sério ou só algo passageiro: mas ele sabe o que faz e porquê faz, preza a satisfação e isso o diferencia dessa nova geração de homens "sem culhão" que não sabem que a ausência de um "eu quero" é muito pior que a presença de qualquer "não quero" por aí. Tá faltando masculinidade e sobrando "minusculidade".  

terça-feira, 24 de abril de 2012

Deixa disso?

Como eu quero - Kid Abelha

   Movimento uniforme com o pé esquerdo que entrega receio e insegurança, cuidado ao evitar meus olhos e ensaio emocional típico de quem observa cautelosamente o olho mágico ensaiando mentalmente, pela milésima vez, o discurso indiferente e potencialmente infalível. "Nossa, você? O que quer?" - não sabia se ria pela pergunta ou pela expressão facial indiferente que não fazia jus a pupila já dilatada ou ao suor incontrolável entre os dedos da mão. Enfim... já disse que sinto decepcioná-lo? Claro que li e ouvi você pedindo para que eu só voltasse quando soubesse o que queria e o quão estava cheio de minhas promessas vazias a respeito de tentar fazer certo dessa vez e sair de mansinho na manhã seguinte - aqui estou, sabendo exatamente o que quero e consciente de que sua história pateticamente moldada pela sociedade não faz jus aos meus planos - conscientes nós, pra dizer a verdade. Gosto de você assim: verdadeiro ou falso - sem padrões, sem expectativas, sem pedir no meio da noite que nunca mais o magoe. Convenhamos? Você não abriu a porta acreditando que eu viria com uma caneta assinar seus termos e condições de uso, abriu por saudade, abriu por não suportar a ideia dos seus lábios tão distantes dos meus, do meu gosto amargo que ainda é seu preferido. Desprezo saudável, consideração banal, saudade maior que receio, julgamentos supérfluos, eu e você mais uma vez fingindo que somos eternos. 

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Amor de 25 minutos.

Eduardo e Mônica - Legião Urbana

   O cara do canto direito de camisa xadrez, barba por fazer, cabelo jogado e típico intelectual de camiseta bacana me olhava de forma tímida e atenciosa. Recíproco, se não fosse pelo “tímida e atenciosa”. Chamou-me a atenção durante uns vinte e cinco minutos e entrou com seu jeito meia boca no meu jogo de sedução. Meia boca não do jeito morno, mas meia boca do jeito dele, meia boca do jeito que me faria ter história pra contar, meia boca pra apresentar pra família e amigos, meia boca pra completar a minha meia boca. Olhava e me prometia o mundo pouco a pouco e eu só tentava esconder que aquela não era minha noite. Fui seu desafio, alvo do seu olhar e do seu sorriso avisado. Dois perdidos, vinte e cinco minutos perdidos. Eu sorri como quem provoca, você sorriu me entregando sua história de mão beijada... Você não fazia ideia que eu não gosto do que eu posso ter de todo, não é mesmo?

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Ex-saudade de futuro.

O conto do nerd e seu coração partido - Soulstripper
   
   Não gosto de gente morna, meio termo, que demora pra se decidir. Não gosto do mais ou menos, do menos ou mais. Gente que retoma o que seria pra não retomar o que era - esquece o passado mas esquece de esquecer o futuro. Não gosto de mim ou de nós, não mais. Cada mensagem de bom dia ou de boa noite que aparece depois de dias sem nem duas palavras trocadas são evidências da nossa fraqueza. A necessidade de um beijo meia bocana calada da noite, de falar da saudade que sente ou de chamar de "meu bem" como se fosse a última vez. Retomar o relacionamento também nunca foi a solução. Nós começaríamos do ponto em que paramos e, se o começo não deu certo, o final seria um caos completo. Escrevo essas palavras como o "adeus". Não aquele adeus do qual falamos após o término, ou o adeus ao passado para que pudéssemos retomar o que seríamos. Não. Esse é o meu adeus ao nosso futuro, às nossas míseras migalhas, à esperança que plantamos um dentro do outro quando a saudade bate e somos obrigados a fazer uma ligação só pra ouvir uma voz: não quero mais restos de você ou de nós.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Romance antiquadamente moderno e excentricamente particular.

Try a Little Tenderness - Cássia Eller

   Julgou-se inteligente demais e me fez uma análise psicológica que terminava em “Medo de compromisso”. Patético, mas bem melhor que a maioria que terminaria em um típico “Fria e sem coração”. Reconheço seu esforço ao agir como Romeu em pleno século XXI, ao ter dito coisas pensadas e ao tentar montar momentos perfeitamente calculados como uma atitude treinada com várias mulheres por ai sem erro no final das contas. Perdão se te decepcionei, se te deixei na mão ou se falei que ia ligar e nem lembrei mais seu nome. Errou comigo, errou ao tentar contar o conto de fadas errado. Não é que eu queira desencantar todo o tradicionalismo dos grandes contos, mas digamos que minhas fantasias sejam exclusivas demais pra serem escritas por ai. Não quero alguém que abra a porta do carro, jantar a luz de velas, aniversário de namoro ou deitar na grama pra assistir os cosmos ao som de Mozart. Não quero. Li uma vez que sou o tipo de mulher que se acha mais inteligente que a maioria dos homens, mas no final só sobra meu ego. É, talvez eu seja mesmo assim. Gosto de jogo de reciprocidade sem compensação ingrata, quem me tire do chão e me tire do sério.  Dois copos de whisky, dueto ao som de tempo perdido, um terraço qualquer, imprevisibilidade completa e possessividade zero. Ciúmes só por charme. Não saber previamente a resposta pras minhas perguntas mas poder fazer milhões delas.
   Ainda vou ficar com babacas por serem bonitos e ser acordada as 2 da manhã com uma mensagem de boa noite dizendo o quão estou sendo especial e desaparecer dois dias depois no sempre. Ainda serei hipócrita ao ouvir histórias de caras que parecem autores de livros de autoajuda ou de caras que acham que são experientes demais por serem alguns anos mais velhos. Ainda vou ouvir muitos “nunca pensei que ia gostar de alguém mais nova” e muitos “sabia que não podia me relacionar com alguém mais nova” depois que eu digo que me cansei. Perdão se você foi só mais um test-drive antes do cara certo. Eu me canso, me cansei de todos até agora, me cansei de você. Sei que não respondo mais suas mensagens, que atendo suas ligações com uma música alta demais pra ser ouvido, que fingiu que mudou por mim ao mudar por você mesmo, mas, seja como for, você é perfeito – só não é pra mim, só não é tão meu.